Os 51 meses de SAF e os fantasmas que insistem em assombrar o botafoguense

Os 51 meses de SAF do Botafogo e os fantasmas que insistem em assombrar o botafoguense

Maurício Assumpção (in memorian) e Antônio Carlos Mantuano, representantes da antiga e atual política alvinegra

Por Sérgio Nascimento | Resenha do Bairro

Na tarde de 24 de dezembro de 2021, recém-promovido à Série A e campeão da Série B daquele ano — competição que contou com clubes tradicionais e campeões brasileiros como Bahia, Coritiba, Vasco e Cruzeiro — o Glorioso vivia um momento de grande reabilitação, sob o comando do técnico Enderson Moreira.

Naquela data, o clube recebeu um verdadeiro presente de Natal antecipado. O investidor norte-americano John Charles Textor, acionista do Crystal Palace, da Inglaterra, apresentou uma proposta de aproximadamente R$ 400 milhões e adquiriu 90% das ações da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Botafogo.

O primeiro pensamento do torcedor foi imediato: "Agora estamos livres das disputas políticas pelo controle do clube".

Durante décadas, o Botafogo viveu ciclos repetitivos de recuperação, estruturação e posterior destruição administrativa. Cada presidente tinha, na prática, dois mandatos de três anos para implementar seus projetos, mas raramente conseguia deixar um legado duradouro.

Após o primeiro rebaixamento do clube, em 2002, o então presidente Bebeto de Freitas apresentou, em 2003, um projeto inovador, baseado na participação dos torcedores e na profissionalização da gestão. Cercou-se de profissionais de mercado, fortaleceu a marca Botafogo e estabeleceu importantes parcerias comerciais.

O clube fechou acordo com a rede de lanchonetes Bob's, estampando a marca nas mangas do uniforme e instalando quiosques no Estádio Luso-Brasileiro, na Ilha do Governador. Também surgiu o projeto Arena Petrobras, parceria que viabilizou a instalação das arquibancadas tubulares no Estádio. Sem grandes investimentos, o Botafogo conseguia crescer por meio da criatividade e de boas parcerias.

O programa de sócio-torcedor oferecia benefícios concretos, como cartão personalizado e camisa oficial para os planos mais completos. Já a campanha "Botafogo no Coração" ocupava um espaço nobre na camisa alvinegra.

Em 2008, Bebeto entregou o clube a Maurício Assumpção. Nos primeiros anos, a nova gestão investiu fortemente no marketing e conquistou grandes patrocinadores, como João Fortes Engenharia e, posteriormente, a Liquigás e Caixa Econômica um dos maiores contratos da história do clube até então.

Entretanto, os três últimos anos de gestão foram marcados por dificuldades. Após a contratação do astro holandês Clarence Seedorf e a montagem de um elenco competitivo, o Botafogo sofreu com questões estruturais e políticas. O Estádio Nilton Santos foi interditado por laudos que apontavam riscos estruturais, obrigando o clube a atuar longe de sua casa.

Em 2014, Botafogo e Flamengo disputaram a Libertadores enquanto dividiam o recém-reformado Maracanã. Com a saída de Seedorf e do técnico Oswaldo de Oliveira, o clube ficou sem referências técnicas, sem estádio e com graves problemas financeiros. Para agravar a situação, ainda contou com o patrocínio controverso da Telexfree, empresa posteriormente acusada de operar um esquema de pirâmide financeira.

Ao final de sua gestão, Maurício Assumpção entregou o Botafogo rebaixado para a Série B, endividado e com receitas antecipadas.

Carlos Eduardo Pereira assumiu o comando do clube e teve como primeira medida extinguir a reeleição presidencial, justamente para tentar romper o chamado "voo de galinha" que historicamente marcava a política alvinegra.

Durante sua gestão, o Botafogo retornou à Série A, classificou-se para a Libertadores de 2017 e protagonizou uma campanha memorável, sendo eliminado apenas nas quartas de final pelo Grêmio, posteriormente campeão da competição. Aquela eliminação, cercada de polêmicas de arbitragem, ainda desperta indignação entre muitos torcedores.

Nos momentos finais de seu mandato, porém, Carlos Eduardo perdeu apoio interno, especialmente pela condução do caso envolvendo o atacante Roger, que enfrentava sérios problemas de saúde. Outro episódio que ficou marcado pela ingerênciado clube foi a revelação dos bastidores da saída do treinador Jair Ventura, segundo alguns jornalistas, o técnico pagou as despesas do próprio bolso para a rescisão de contrato para assinar com o Santos.

Seu vice-presidente, Nelson Mufarrej, assumiu a presidência e deu continuidade ao triênio iniciado por CEP. Sob sua gestão, o Botafogo realizou a pior campanha de sua história no Campeonato Brasileiro. O time chegou à impressionante marca de 19 partidas sem vitória.

Mesmo em meio à pandemia, a diretoria apostou em nomes de impacto internacional, como Keisuke Honda e Salomon Kalou. No entanto, a temporada foi marcada por instabilidade, com cinco treinadores diferentes e um novo rebaixamento para a Série B.

Durcesio Mello assumiu o clube em um dos momentos mais delicados de sua história. Em seu primeiro mandato, promoveu uma profunda reorganização financeira. Após ampla pesquisa de mercado, contratou o CEO Jorge Braga, personagem fundamental no processo de profissionalização do clube e na preparação para a futura venda da SAF.

A folha salarial foi reduzida, despesas foram enxugadas e, mesmo enfrentando os efeitos da pandemia, a ausência de receitas de bilheteria e a redução de aproximadamente 70% das receitas de televisão na Série B, a gestão conseguiu reorganizar a instituição.

Em meio a um cenário extremamente adverso, o Botafogo arrumou a casa. E, no dia 24 de dezembro de 2021, assinava o contrato vinculante com John Textor, iniciando oficialmente uma nova era.

Passados 51 meses desde a chegada da SAF, a pergunta permanece no imaginário alvinegro:

A SAF é uma boa ideia?

A resposta talvez não esteja apenas nos títulos conquistados ou nos resultados dentro de campo, mas principalmente na capacidade do clube de finalmente romper com os fantasmas administrativos que, por décadas, assombraram General Severiano e a torcida botafoguense.

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